Odeio me despedir

Quando chega a hora de me despedir é sempre uma tortura, mesmo que a despedida seja por poucas horas.

Essas poucas horas sem o seu cheiro e o som da sua voz é o suficiente para fazer o tempo parar e não chegar nunca a hora de te ver.

A cada despedida eu sinto gratidão pelos momentos ao seu lado, mas sinto aquela saudade antecipada, sinto o peito apertado, o medo, a vontade de grudar e não ir embora nunca mais. Aí eu me despeço e viro as costas para ir pra casa, mas me dá uma vontade louca de voltar correndo e me jogar nos seus braços e te dar um abraço bem longo, mais um vez.

Já que é pra fazer, melhor fazer direito.

Entre as muitas coisas que me irritam, coisa mal feita é uma delas. Imagine se um médico faz algo mal feito, se um pedreiro faz algo mal feito. As consequências podem ser catastróficas.
Eu fico muito nervosa quando vejo alguém fazer algo de má vontade. Fazer porque tem que fazer ou porque está sendo pago para isso. Nesse último caso é só mais um motivo para fazer o serviço bem feito, afinal, alguém está te pagando para que o serviço seja o melhor possível.

Não gosto de coisas pela metade, não gosto de coisa capenga. Odeio, principalmente, ver onde está o problema e não ter o poder pra resolver e ver que quem tem esse poder não se interessa em melhorar. Seja qual for o seu trabalho, faça da melhor maneira possível, sempre. Fazer um serviço mal feito é prejudicar a própria imagem, a imagem de outra pessoa e até mesmo a imagem da empresa.

Vejo todo dia líderes empurrando problemas com a barriga e brigando para ver de quem vai ser a culpa. Vejo também esses mesmos problemas serem resolvidos “magicamente” sem que ninguém fizesse alguma coisa, afinal, não era a culpa de ninguém então ninguém quer resolver também.
Ver a injustiça de uma empresa agir dessa forma e dar certo só aumenta a minha revolta. Se cada um fizer a sua parte da melhor forma, fazendo o que deve ser feito sem medo de assumir os erros, tudo dará certo. Nós temos que parar de buscar alguém para culpar e resolver o problema mesmo assim, o que existe são erros e soluções, insistir que está certo, não assumir o erro e não demonstrar que está fazendo algo para resolver o problema é atraso na vida de todo mundo.
Um serviço mal feito sempre vai precisar ser refeito, e ter que fazer a mesma coisa duas vezes é perda de tempo, dinheiro e talento.

 

Eu sei o que você está pensando

Isso não é uma resenha de livro. É que é tão bom ler um livro e sentir falta de um personagem.
Recentemente terminei o livro “Eu sei o que você está pensando” de John Verdon pela editora Arqueiro e conheci o detetive David Gurney. Como eu sinto falta desse detetive!

Além deste personagem ter me fisgado, um outro detalhe do livro me pegou. É um diálogo entre Mark Mellery e David. O diálogo em si é irrelevante para as coisas que acontecem, mas o que Mark disse para David me pegou em um momento e tanto e me fez refletir. Só para te situar, Mark Mellery é um desses caras que têm uma vida toda torta e que em algum momento da vida enxergam algo e viram guros e escrevem livros dizendo o que as pessoas querem/precisam ouvir, ele é o perseguido pelo autor da carta que pede para que ele pense em um número. Em um dos vários diálogos entre Mark e David, Mark fala sobre dicotomia interna.

Na filosofia, dicotomia é a partição de um conceito em dois outros, é uma divisão, uma dualidade dento de alguma coisa. E ele diz:

“O conflito mais simples é o que existe entre o modo como nos vemos e o modo como vemos os outros. Por exemplo, se estivéssemos discutindo e você gritasse comigo, eu acreditaria que a causa do grito era a sua incapacidade de controlar seu temperamento. Mas, se eu gritasse com você, não pensaria que a causa do problema era meu temperamento, e sim a sua provocação. Ou seja, meu grito seria uma reação adequada a algo que você tivesse feito. Cada um de nós parece acreditar que minha situação causa meus problemas, mas a sua personalidade causa os seus. Isso cria conflitos. Meu desejo de que tudo seja feito do meu modo parece fazer sentido, mas seu desejo de que tudo seja feito do seu modo parece infantil. Um dia perfeito seria aquele em que eu me sentisse melhor e você se comportasse melhor. A forma como vejo as coisas é a forma como elas são. O modo como você as vê é deturpado por seus objetivos.”

E cara, quando duas pessoas estão passando exatamente por isso, não tem jeito delas se entenderem. É tão gostoso quando um livro te pega nesse jeito, pois era esse momento que eu estava vivendo quando passei por esse trecho do livro.
Assim que li abri o Google Docs e anotei esse pedaço do diálogo pois eu sabia que tinha que guardar isso pra vida. Ficou claro para mim que tudo o que estava passando era basicamente por isso, por achar que o meu modo fazia sentido mas o do outro era infantil, só que essa outra pessoa estava pensando exatamente da mesma forma! Se isso continuasse, o problema não seria resolvido nunca. Preciso me lembrar de refletir sobre isso mais vezes.

Eu sei o que você está pensando” é um suspense policial. É o primeiro livro do autor com o detetive Gurney. O livro me prendeu do início ao fim e não precisou acelerar a história e acontecer coisas mirabolantes para ficar interessante. O livro me pareceu ter o ritmo certo, ainda que você descubra antes de todos os personagens onde encaixar as peças do quebra-cabeça. É isso que faz você se sentir parte da história e te faz ir até o final, saber se você está realmente certo e ver quando e como os personagens vão descobrir tudo, e mesmo assim o final consegue te surpreender.
Além da história principal, a história pessoal do detetive Gurney é igualmente interessante, a forma dele agir e pensar te prende da mesma forma que o restante do livro e me fez sentir falta dele. Essa falta é o que está me fazendo ir atrás dos próximos livros do personagem: Feche bem os olhos, Não brinque com fogo e Peter Pan tem que morrer.

Para quem se interessa, segue a sinopse do livro:

‘Eu sei o que você está pensando’ propõe um enigma que parece insolúvel. Um homem recebe pelo correio uma carta que termina da seguinte forma – ‘Se alguém lhe dissesse para pensar em um número, sei em que número você pensaria. Não acredita? Vou provar. Pense em qualquer número de um a mil. Agora veja como conheço seus segredos.’ O destinatário, Mark Mellery, pensa no número 658 e, ao abrir um envelope que acompanha a mensagem, descobre que o autor da carta previu corretamente o número que ele acabara de escolher de modo aleatório. Desesperado com os bilhetes ameaçadores que se seguem à carta, Mark procura um velho colega de faculdade, o detetive David Gurney, recentemente aposentado do Departamento de Polícia de NovaYork. Aos 47 anos, David acaba de se mudar com a esposa para uma fazenda no interior do estado e tenta se adaptar a um novo estilo de vida. Mas sua mente, extremamente lógica, é fisgada pelo quebra-cabeça apresentado por Mark. Ele percebe que encontrou um vilão à sua altura quando as estranhas ameaças terminam em morte. Tudo leva a crer que o assassino, além de ser clarividente, cometeu um crime impossível, deixando pistas sem sentido e desaparecendo no meio do nada. Consumido pelo desafio de encontrar uma resposta lógica para o caso, David aceita trabalhar como consultor na investigação, colocando em risco seu já debilitado casamento e até mesmo sua vida.

Nos perdemos, onde vamos chegar?

A humanidade está mesmo perdida? O que aconteceu com a gente? Por que é que nós somos assim? Por que queremos tanto ter mais que o outro, ser mais que o outro? Não basta mais ser bom, tem que ser ótimo. Não basta viver bem, tem que ter milhões, cada vez mais. Não basta ajudar, se ajudou de uma forma tinha que ter ajudado de outra. Se disse que ajudou, não tinha que ter dito. Não basta fazer, tinha que ter feito melhor.
E é assim que as coisas andam, as pessoas só reclamam, mas não reclamam porque não gostam, reclamam para demonstrar que são (acham que são) melhores que você e que fariam as coisas de forma muito melhor. Querem mostrar que sabem mais e que são superiores.

Sabe o Kiko? Nós somos como ele, quando deveríamos ser mais como o Chaves. O Chaves se contenta com o necessário, com o lanche favorito, com o único brinquedo. Mas o Kiko não, para se sentir bem ele precisa mostrar que tem dois lanches de presunto e deixa claro que não vai dividir enquanto o outro não tem nenhum, precisa de uma bola maior, um carrinho maior.
Ter dois lanches enquanto o outro não tem não é um problema se você for realmente comer, o problema é esfregar na cara de quem não tem e deixar claro que não vai dividir. O problema é mostrar só pra falar que tem.
Por que nós somos tão horríveis assim?

O que aconteceu com a gente? Por que somos tão violentos a ponto de um cidadão de bem descer armado do carro pois o cara de trás buzinou? Por que queremos machucar, bater, torturar os outros para resolver as coisas? Por que queremos provar para os outros que somos mais fortes, mais ricos e mais inteligentes? Por que ignoramos completamente o outro para satisfazer o ego?
Quando vamos acordar e perceber que da pra todo mundo ter o necessário e um pouco mais, por igual, e que se tiver um pouco mais não tem problema pois todo mundo já tem o que precisa para viver dignamente? Quando vamos parar de tirar vantagem, de dar um jeitinho, de desviar o dinheiro da merenda escolar de quem não tem comida em casa, de tirar dinheiro do trabalhador pra sustentar viagens, banquetes e luxos completamente desnecessários? Você sabia que tem criança que vai para a escola só pra comer a comida pois em casa não tem? E tem gente mais preocupada em negar, se dizer inocente e virar a cara pra não ver.
Quem pode mudar a situação do mundo está pouco ligando pra ele.

As pessoas só falam em matar, exterminar, isolar. É só ódio pra onde você olha. Até certo ponto entendo o ódio que nós sentimos, a situação caótica que vivemos nos deixou assim, egoístas. Pensamos: “se quem pode fazer algo por mim não está nem aí então vou eu fazer a qualquer custo“, então precisamos buscar alguém para culpar, mas a gente não vê que os culpados somos nós mesmos. Como diz Hobbes, o homem é o lobo do homem.

O que aconteceu com as pessoas? Por que atacamos cidades com armas químicas sabendo que crianças vão morrer? Qual é o objetivo disso? Não interessa quem foi e nem o motivo, pois nada nada nada, absolutamente nada, nenhuma religião, política ou ideologia pode justificar um ataque desses ou autorizar que isso aconteça. E o ataque não pode justificar um contra-ataque onde, como resultado, trará as mesmas consequências. Qual é o sentido de inventar armas para matar alguém por questões pessoais? Qual é o sentido de criar bomba nuclear com poder de destruir um país inteiro? Quando vamos perceber que matar não é a solução pra nada e que nenhum recurso ou território é maior que a vida de inocentes?

São muitos porquês e a verdade é que as respostas certas são: Não sei, sei lá, nem sei direito porque estou fazendo isso e faço pois outros também fazem.
O errado continua sendo errado mesmo que todo mundo faça.

Mas a minha timidez não deixa

Não sei se é timidez ou outra coisa, mas eu sofro muito com isso aí. As pessoas me cobram atitudes que muitas vezes eu só não tomei por culpa dela (a vergonha). É incontrolável. Chego em algum lugar e fico com medo de dizer oi pois não quero ser deixada no vácuo. E o problema não é não me responderem, o problema é alguém ver que não me responderam e me ridicularizar por isso. Odeio sentir vergonha. Acontece que raramente as pessoas me ouvem mesmo pois o meu tom de voz é baixo e não sei o que fazer com ele. Será que teatro resolve?

Tenho medo de interagir com as pessoas da forma que gostaria e ser julgada ou chamar atenção demais. Com o tempo essa minha característica está piorando. Tenho medo de mostrar o que sei fazer e pensarem o que não devem. Eu deixo de fazer o que gostaria e de ser quem eu sou a todo momento por conta desse medo que tenho dos outros. Não deve ser timidez, deve ser outra coisa.

Vivo com medo de tudo e de todos. Tenho medo de errar, medo de parecer over, medo de aparecer, mas odeio ficar escondida e ser esquecida. Sei lá, não gosto de me meter e prefiro quando me chamam e se lembram de mim, quando me envolvem em algo pois lembraram das minhas habilidades do que chegar metendo o pé na porta como qualquer pessoa normal faria. Acontece que quero que se lembrem de mim, mas nem sempre faço por onde. Como quero que as pessoas se lembrem de algo que elas nem sabem que existe?

Tenho medo de passar ridículo, tenho medo de brincar, tenho medo de ser ridícula algumas vezes. Acontece que na vida a gente tem que ser ridículo para aproveitar as coisas de verdade. E eu tenho medo disso, tanto que depois que acaba eu sempre paro e penso que poderia ter aproveitado muito mais, que fui idiota em ter me importado demais com o que os outros pensariam, quando na verdade não tinha ninguém pensando em nada. E geralmente nunca tem mesmo, mas gente com esse problema que eu tenho sempre pensa que os outros julgam tudo durante 24 horas.

A verdade é que com essas atitudes e medos eu sou a única que está perdendo um montão de coisas maravilhosas e deixando passar oportunidades.