As mulheres no ambiente de trabalho

Data: 24.08.2015  Categoria: Pessoal  Leitura: 9 minutes 

“Se você encontrar algo pelo que se apaixone, não está em jogo se você é homem ou mulher. Paixão é uma força que neutraliza o gênero.” – Marissa Mayer, ex vice-presidente de serviço geográfico e locais do Google e atual CEO da Yahoo!

O tema machismo apareceu muito na minha frente durante esses últimos dias e estava querendo falar mais a respeito. Fazendo uma pesquisa rápida para o post, fui na página Think Olga, um projeto feminista criado em 2013 pela jornalista Juliana de Faria, uma página interessante para ler mais sobre o assunto e recomendo.
Lá me deparei com uma matéria muito bem escrita da Itali Collini, formada em economia pela USP. Nessa matéria ela fala sobre as dificuldades da mulher no mercado financeiro. O triste é que a realidade dela não pertence só a ela, mas sim a muitas mulheres por aí e não se encaixa apenas no mercado financeiro, se encaixa também na engenharia, TI, política, polícia e em qualquer outra profissão dominada por homens.

O que ela escreveu me sensibilizou o bastante para escrever também, pois são histórias parecidas até um certo ponto. Ela começa o texto dizendo: “Como a maioria de nós, eu cresci e fui socializada com uma certa cegueira que impedia de perceber as nuances de gênero que a sociedade nos impõe. Tudo parecia ser uma questão de merecimento e recompensa, bastava me esforçar… bastava que eu entendesse como funcionava a mente dos homens e me comportasse um pouco mais como eles e então eu poderia ser o que quisesse…

Ela disse que pensar dessa maneira a ajudou até seus 22 anos, que foi quando ela entrou para o mercado financeiro como estagiária de uma mesa de operações. Comigo foi algo bem parecido, cresci no meio dos meus irmão mais velhos, na minha idade só havia meninos na rua e mais uma menina com quem eu pudesse brincar. Para mim as brincadeiras de meninos eram todas normais, o que eles falavam também e achava que era uma deles que poderia agir e falar como eles e estaria tudo certo. Talvez por esse motivo em uma certa fase na escola eu me dei melhor com os meninos que com as meninas (que nem educação física faziam). Na faculdade só havia homens e não senti nenhum preconceito ou machismo e coisa do gênero por parte deles ou dos professores, eu estava ali aprendendo como todos eles. Eu realmente achei que essa história toda de machismo não existia hoje em dia, até que a coisa mudou quando comecei a trabalhar na área e a observar melhor as coisas que aconteciam comigo e com outras a minha volta. Hoje percebo as coisas que aconteceram comigo dentro da sala de aula e penso como pude ser tão idiota em não perceber antes. É óbvio que não estou falando de todos que estavam ali dentro, felizmente esse tipo de coisa vem sempre de um grupinho pequeno, mas infelizmente o resto acaba indo no embalo e dando risada das piadinhas que podem acabar com a sua autoestima e a segurança de ser quem você é.

No trabalho, se você não sabia de algo o motivo era apenas um: você é mulher, e mulher não sabe programar porque mulher não nasceu pra isso e não nasceu pra usar lógica, e não porque estava aprendendo e no começo da carreira. Não estou dizendo essas coisas porque eu imaginei elas, estou dizendo porque é o que eu ouço. Essas coisas nunca foram ditas diretamente para mim, estavam sempre falando de uma outra mulher, de uma outra empresa que fulano trabalhou a não sei quanto tempo atrás. Acontece que isso sendo verdade ou mentira,  sendo para mim ou não, me atingia, afinal sou mulher tanto quanto qualquer outra que trabalha na área. Mas volto a dizer que isso não vinha de todos.

Ela diz mais: “Foi quando eu encontrei a parede que me separava deles. Mesmo que eu falasse de futebol, de mulheres e sexo como homens, e mesmo que eu quisesse ir ao stripclub por vontade própria, não me era ‘permitido’. Naquele ambiente os homens não eram meus amigos.” Lá ninguém te conhece como você realmente é e só por ser mulher você se torna um corpo estranho em um lugar que não te pertence.

Imagem retirada de ThinkOlga

Mais cedo eu disse que não sofri preconceito por parte dos alunos da sala, não disse? Pois é, estava errada, eu apenas havia me esquecido de uma fato que me deixou super chateada na época. Quando li o que a Itali disse: “Meus questionamentos causavam incomodo, ‘uma mulher não deveria ficar incomodada por não poder ir num stripclub, ela tem os happy hours” lembrei de um convite que não recebi para ir a um Paintball. Desde criança sempre morri de vontade de entrar em um, sempre gostei de armas, brincar de polícia e ladrão, das roupas… Um belo dia a oportunidade de ir com uma galera surgiu mas não fui convidada por não ser um “menino”, nem se preocuparam em saber se euzinha aqui gostaria de ir, não me deram o poder da escolha. Ouvi “você é mulher e aquilo machuca, até fulano ficou com medo e quase chorou, imagina você lá“. Desculpa, mas se fulano ficou com medo ou não, se alguém saiu roxo ou não o problema não é meu, acho que quem tem que decidir isso sou eu.

Então não era uma questão de querer ser homem, mas uma questão de saber as limitações que me são impostas quando sou lida como mulher o tempo todo, e daí vem a vontade de querer ser lida como uma mulher mais masculina. Não vem de uma auto rejeição do meu eu, mas de uma rejeição ao julgamento que é dirigido a mim por eu ser mulher“. Essa sou eu, lutando pra desfazer a imagem masculinizada que ganhei/criei para alguns tentando ser vista de outra forma e com mais respeito, e acredite, agir como um homem e pensar como um não vai trazer nada disso a você; só se você tiver um pênis entre as pernas.  É exatamente isso o que eu quis dizer, é exatamente isso que eu sinto e senti naquele momento em que decidiram por mim que eu não poderia ir ao paintball ou quando dizem que eu tenho o sonho de casar e ter filhos embutido só por ter nascido mulher, ou que eu quero sim ter um namorado e se não tenho não é por escolha, é porque ninguém me quis. Acredite se quiser, esse pensamento vem do mesmo cara que fala que mulher não nasceu pra programar.

“A minha experiencia no mundo masculino me fez perceber que eu tenho mais é que ter orgulho de ser quem eu sou, do meu jeito e da minha maneira”… falou tudo Itali.

Imagem retirada de ThinkOlga

A um tempo atrás o inglês Tim Hunt, premio Nobel de física em 2010 fez uma declaração bem infeliz, disse que três coisas acontecem quando há mulheres no laboratório:

  • Você se apaixona por elas;
  • Elas se apaixonam por você;
  • Elas choram quando são criticadas.

Como consequência ele renunciou o cargo de professor honorário que tinha em uma universidade e a declaração dele só evidenciou o quanto mulheres sofrem preconceito, seja ele na cara larga ou pelas costas. Em faculdades por exemplo, se você tira notas altas sempre gera comentários maliciosos.
Ele pediu desculpas e disse que só estava tentando ser engraçado, o problema é que quando você é alguém importante pessoas vão levar a sério o que você fala principalmente durante uma palestra na Conferência Mundial para Jornalistas de Ciências na Coreia do Sul. Existe tanta piada pra contar e o cara quer ser engraçado com uma coisa dessas?

A Isis Anchalee Wenger de 22 anos é uma engenheira de software. Ela e outros 3 funcionários participaram da uma campanha de marketing para um processo seletivo da empresa onde eles trabalham. A menina é linda, e ao lado da foto a mensagem “Minha equipe é ótima. Todos são inteligentes, criativos e engraçados” junto com o nome e o cargo da funcionária. O mesmo se repete para os outros 3 caras, cada um ao lado da sua frase, nome e função.

No Facebook o cartaz recebeu rapidamente comentários negativos e um deles dizia “Tenho dúvidas se pessoas com cérebro acreditam na mensagem deste pôster e se as mulheres, em particular, acreditam que essa é a aparência de uma engenheira de software.“* Outros diziam que “se a intenção deles era atrair mais mulheres, seria melhor escolher a foto de uma mulher com um sorriso simpático em vez de sexy.“* …. Wtf????Oi????

Foto retirada do Medium

Como resposta aos comentários negativos ela fez um post na rede Medium sobre esses estereótipos das pessoas que trabalham com tecnologia. Ela diz no texto que já passou por situações humilhantes no ambiente de trabalho nos outros lugares em que ela já passou. Ela diz que uma vez um funcionário jogou dinheiro para ela e um outro mandou mensagem perguntando se ela não queria uma amizade colorida. Para ela, essas pessoas não são pessoas ruins, são caras normais mas que esse tipo de comportamento faz com que as mulheres se sintam desconfortáveis em seus próprios locais de trabalho, e eu concordo e acredito que sejam boas pessoas, só que não são pessoas com as quais desejamos trabalhar e não é o tipo de atitude que desejamos encontrar, principalmente num ambiente profissional.

Além do post no Medium ela criou a hashtag #ILookLikeAnEngineer para incentivar a mulherada a postar suas fotos e quebrar o estereótipo machista e preconceituoso de como as mulheres da área deveriam ser, e os homens também, porque não? Afinal, o nerd não é mais aquele cara gordinho, virgem, que usa óculos de armação grossa e remendado que programa com um copo de coca-cola e hambúrguer ao lado.

Foto da capa: ryanbattles

*tradução livre

Comentários

Be kind / Be nice

  • Quando eu tinha meus 16 anos, era uma garota que não gostava quando faziam essas piadas de que se bateu o carro é porque é mulher que está dirigindo, Nunca suportei esse tipo de brincadeira que por incrível que parece, muitas mulheres acabavam concordando.
    No mais adorei esse artigo você escreve super bem.

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