Seu egocentrismo me cansa

Data: 26.10.2015  Categoria: Pessoal  Leitura: 7 minutes 

Algumas vezes me sinto vigiada e controlada. Sinto que existe alguém olhando tudo o que faço, falo e escrevo, esperando o meu primeiro deslize, o meu primeiro vacilo para jogar algo na minha cara; algo que não tenho ideia do que pode ser. Só para esse alguém se sentir melhor, se sentir feliz, se sentir superior. Esta pessoa pode ser uma só, podem ser duas ou pode ser todo mundo.

O umbigocentrismo faz com que tudo seja levado para o lado pessoal, afinal, se acham o Sol da vida de alguém, onde tudo o que alguém faz, onde tudo o que alguém fala foi pensando em você antes, pensando no que você poderia pensar. Porque raios alguém pensaria em outra coisa senão você, não é mesmo?

Indireta no Facebook é pedir para dar problema pois todo mundo leva aquilo que foi publicado para si. Para nós vermos que somos tão bons e tão superiores aos outros (só que não) que a consciência pesa e a gente acha que aquilo foi uma indireta. Às vezes nem foi, às vezes nunca é uma indireta, pode ter sido uma música, um filme, algo que ela leu e a fez pensar. Nem sempre o que a gente publica é para os outros.
Aliás, cuidado ao colocar trecho de música romântica, vão achar que você está apaixonado ou sofrendo por amor. Acredite, uma amiga bem random veio me falar para parar com as postagens porque, segundo ela, estava ficando feio pra mim. Ela achou que eu estava dando uma de sofredora mandando indireta pra algum carinha, quando na verdade eu estava toda felizinha do outro lado do monitor apenas tendo uma crise de nostalgia musical ouvindo os sambas e pagodes das antigas e vendo os clipes da época no YouTube. Essa aí é profissional em julgar e deduzir o que as pessoas estão passando na vida.

Existe profissional em tudo! Existe o profissa dos assuntos políticos atuais, existe o profissa da história do Brasil (aquela história verdadeira, e que só ele conhece). Existe o profissa em ver séries, aquele que não admite ter uma conversa e dividir ideias e possibilidades para o personagem, para o próximo episódio. Não! O cara é profissional, como você se atreve a discutir com ele? Esse cara trabalha com o que vê, ele é fera no assunto!

Talvez eu esteja misturando os assuntos, talvez eu esteja falando de uma coisa só e você não deve estar entendendo nada do que está passando pela minha cabeça e onde estou querendo chegar, mas no final as coisas vão se conectar. Olha só:

“Ideias mudam lentamente, assim como todas as coisas vivas” – Aline Valek

Não existe vergonha nenhuma em mudar de ideia, não existe vergonha nenhuma em admitir que talvez a sua hipótese, apesar de plausível, não seja a mais indicada para o momento. Não há vergonha nenhuma em deixar isso registrado e mostrar como você se transformou. Então não deixe que alguém jogue na sua cara que mudou de idéia, que mudou a forma de pensar.
É legal quando você escreve algo para alguém, fala algo para alguém e depois de anos você encontra aquilo no meio das suas coisas, no meio das suas memórias e pensa: “Puts! Como eu pude falar isso? Como eu pude ser assim?”. É ótimo, pois mostra que você mudou, e mudou pra melhor.

“Eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes,
eu prefiro ser essa metamorfose ambulante,
do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Sobre o que é o amor, sobre o que eu nem sei quem sou.
Se hoje eu sou estrela amanhã já se apagou,
se hoje eu te odeio amanhã lhe tenho amor.
Lhe tenho amor, lhe tenho horror, lhe faço amor.
Eu sou um ator.”
Metamorfose Ambulante — Raul Seixas

Quando eu estava escrevendo este post me lembrei da newsletter da escritora Aline Valek, Bobagens Imperdíveis de edição nº88 que recebi a algumas semanas. Veio bem a calhar pois ela ilustra bem o que eu penso e quero dizer aqui, só que muito melhor e com muito mais detalhes, o que é ótimo! (Vou colar aqui heim Aline!)

“Aí vem a frustração e a profunda raiva quando entramos num debate, gastamos enormes quantidade de energia, saliva e memes sarcásticos, e a outra pessoa sai da discussão acreditando nas mesmas coisas que acreditava antes de entrar no debate com você. Porque o que queremos dizer ao debater, além de provar que nossa ideia é melhor que a do outro, é “quero que você mude de ideia e mude de ideia AGORA.”
A gente não permite nem que a outra pessoa tenha algum tempo pra pensar, sabe. […] Pelo rastro de textos que vou deixando no caminho, fósseis de tempos em que eu pensava e via o mundo de forma diferente, percebo o quanto algumas ideias foram evoluindo com o tempo, amadurecendo ou até deixando de existir. E isso não aconteceu num debate, em alguém me confrontando até que eu saísse da conversa completamente “convertida”, mas em sementinhas plantadas aqui, regadas ali, e que com o tempo foram desabrochando na forma de uma ideia diferente.

[…]Um tuíte, um texto ou um discurso representam uma pessoa da mesma forma que o atual mapa-mundi representa o nosso planeta: é apenas um frame, um recorte no tempo de algo que está constantemente mudando e se transformando.”

Essa mudança dentro de nós pode levar anos, meses, uma semana, uma volta para casa depois do trabalho ou ainda uma boa noite de sono. Isso depende do que deve mudar, de quem deve mudar e se é que aquilo deve mudar mesmo. Cada um tem o seu tempo e só nós sabemos o que está aqui dentro.

Pode parecer (e até parece) que comecei falando de uma coisa e terminei falando de outra, mas não. Como disse, está tudo conectado. Essa pessoa que controla o que os outros fazem em busca de erros e contradições é a mesma que acha que tudo o que você faz é por causa dela, é a mesma pessoa que se acha mais importante que você e o resto do mundo. É a mesma pessoa que acha que só a opinião dela importa. Dessas pessoas eu quero me manter longe cada vez mais e estou desenvolvendo meu radar para isso a cada dia que passa e a cada decepção e cada descoberta só contribui pro desenvolvimento do meu sensor de pessoas tóxicas.

Cada um tem os seus princípios e convicções, mas isso não significa que você nao possa mudá-los. Isso não significa que você deixará de ser quem é ou que vão deixar de te amar por isso. Só não é legal ter medo dessa mudança, o mundo não vai apontar o dedo na sua cara e de julgar por isso.

Só algumas pessoas.


Para ler na íntegra o Bobagens Imperdíveis #88 da Aline Valek que citei anteriormente é só vir aqui e para assinar também, assim como eu fiz é só vir aqui.

 

Comentários

Be kind / Be nice

  • Adorei o post Ari! Assinei a newsletter da Aline e fiquei feliz por ler no seu texto a palavra “felizinha”. Que no caso me lembrou a Jout Jout e também devo agradecer você por isso, foi aqui que conheci aquele canal do youtube maravilhoso!

    Beijos! :}

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