Só quero ficar sozinha, não culpe a tecnologia

Data: 19.11.2015  Categoria: Pessoal, Tecnologia  Leitura: 5 minutes 

Culpam a tecnologia pelo fato das pessoas não se comunicarem mais umas com as outras pessoalmente, de ninguém olhar na cara de ninguém no metrô. Mas isso sempre existiu, se não é o celular é o livro, é o jornal e qualquer outra coisa que te tire do lugar que está por um momento. E sabe o que tem de errado nisso? Nada, nadinha!

“Oi, tudo bom?” Essas mensagens me dão arrepio, vou fazer uma confissão aqui, sempre leio o que recebo antes de desbloquear o celular. Não importa de quem é, eu ignoro.
“To com saudade! Quando vou te ver?” Essas me dão frio na espinha, tento fingir que não vi pelo maior tempo possível até pensar em uma desculpa pra não ter que sair de casa (e não receber ninguém na minha também).
Quando era criança eu adorava as minhas amigas em casa, hoje em dia não me mexo pra atender nem campainha e nem telefone. Deixo tudo tocar até a morte.
Sempre que o meu celular toca eu atendo? Sim, mas querer é diferente de gostar.

Infelizmente tenho que inventar desculpas pra não encontrar os amigos pois um simples e honesto “não quero sair de casa” ninguém entende; sempre tem alguém pra rebater com: “você precisa sair de casa”, “porquê?”, “faz mal ficar em casa”. Existem mais respostas que uma pessoa como eu pode ouvir, mas essas três são as que mais me irritam. Porque eu preciso sair? Porque tenho que ter motivos pra ficar em casa, não é o contrário? E porque ficar em casa faz mal?

A ideia de ficar em casa me parece muito melhor que a ideia de sair e ir pra lugares que as pessoas escolheram, em um dia que não quero, sair desse lugar na hora que as pessoas querem e voltar da forma que elas querem que eu volte também, pois se a carona que insistiu pra que eu saísse de casa não quer me levar eu que me fodo!
Aliás, agora vai ser assim: Quer que eu saia com você mas acha ruim se eu falar que não então vai me buscar em casa e vai me deixar lá também. E não to sendo radical pois ainda não to obrigando ninguém a pagar nada.
Quando saio me arrependo no momento que piso na esquina. Cara, como eu queria poder voltar atrás e dizer que não vou mais. Inventar uma dor de cabeça, já que eu to sempre com dor de cabeça.

Porque é que a gente tem que inventar motivos pra fazer ou não fazer alguma coisa? Só pra agradar e não machucar os amigos? Se você é amigo o “não quero” do outro tem que bastar, ninguém precisa de motivos e dar satisfações pra coisas idiotas como essa. E não insista, por favor, o meu “não quero” com a voz mais doce do mundo pode virar o “não quero, porra!” mais amargo que você vai provar na vida!

A tecnologia não afasta ninguém, o celular na mesa do bar não afasta ninguém; pessoas fazem isso, pessoas se afastam e pessoas se isolam. Dou graças por ter bateria no celular e poder fingir que estou resolvendo algo importante e não ter que mostrar a minha falta de interesse em estar ali ou falar sobre algo que não quero.

“Que bom te ver, me conta as novidades — e é realmente bom te ver, mas deixo o celular ao alcance dos meus dedos, porque isso me acalma. Sei que posso recorrer a ele quando me sentir cansada de tanto assunto e tantas perguntas e de já não saber mais o que falar e de já não ter certeza que estou agradando e eu só preciso de um tempo

Mas eu nem gosto de ficar olhando para o celular, o que eu estou fazendo? Fingindo ocupação. Fingindo ter encontrado algo mais interessante. Porque o silêncio ninguém aceita muito bem, e às vezes eu só queria ficar calada sem que isso fosse constrangedor; mas olhar para o celular, isso podem aceitar, isso podem entender e não vão achar que sou estranha, que sou errada, se faço algo que todo mundo faz tão naturalmente quanto pedir licença.” – Aline Valek

É isso, eu nem gosto de ficar olhando pro papel de parede do celular passando a lista de aplicativos de um lado pro outro, mas como foi dito, não aceitam o silêncio então sou obrigada a fingir ocupação pra não ter que ser o motivo de estar quieta, como se eu precisasse de um motivo pra isso, como se tivessem feito algo pra mim pra me deixar calada pois se eu estou calada é porque devo estar triste, não é? Não!

“Porque uma hora vou ter que sair da toca, me arriscar pra fora da zona de conforto, me esforçar um cadim pra não virar de vez eremita das montanhas. E quando toca o telefone de novo, eu atendo.” – Aline Valek

Ainda bem que a tecnologia existe.

 

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