A tolerância mandou um beijo

Data: 26.04.2016  Categoria: Pessoal  Leitura: 8 minutes 

Tolerância, um direito que se reconhece aos outros de terem opiniões diferentes ou até mesmo opostas às nossas. Boa disposição dos que ouvem com paciência opiniões diferentes às suas. Mesmo sem aprová-las.

“Pode ser que não estejamos de acordo com as ideias dos outros, mas devemos estar dispostos a morrer para defender a liberdade de todas as ideias.” – Voltaire

A gente fala muito sobre a liberdade de expressão e direitos mas falamos pouco sobre a nossa responsabilidade com esta liberdade e nossos deveres. Você tem a liberdade de falar, mas não tem a liberdade de ofender! Liberdade de expressão é o direito de todo e qualquer indivíduo de manifestar pensamento, opinião, etc etc.. sem censura. É uma forma de proteger a sociedade de opressões. É algo fundamental em uma sociedade democrática que possua em um de seus pilares igualdade e liberdade. Porém, não é direito ficar no anonimato nem usá-lo de forma inconsequente.

Todos nós temos a liberdade de falar o que quisermos, mas precisamos responder legalmente por isso, arcar com as consequências e claro, saber ouvir o que o outro tem a dizer já que é garantido também, o direito de resposta. Temos o dever de tomar cuidado quando o que falamos puder ofender e agredir verbalmente alguém.

Não quero entrar no dilema certo vs. errado, e o que quero falar é sobre outra coisa, que tem muito a ver com essa liberdade de expressão que todo mundo resolveu usar de forma desgovernada e está machucando muita gente por aí. Não vou falar sobre piadinhas, não vou falar sobre o politicamente correto, e nem de comentários maldosos e grosseiros em blogs, redes sociais e portais de notícias, disfarçados de opinião. Estou falando de apanhar na rua por conta de uma cor de camiseta ou ser excluído de um grupo de pessoas por conta de posição política por deduzirem que você está do lado oposto. Estou falando em sair ofendendo todo mundo por esse mesmo motivo usando o direito de expressão como desculpa pra fazer caquinha.

Todo mundo quer que prestem atenção no que estamos falando, mas temos que parar de passar por cima dos outros pra que isso aconteça. Temos que parar de apontar o dedo e dizer que alguém está errado. Temos que parar de achar que somos melhores, que o seu partido é melhor e que alguém não merece a sua amizade por ter escolhido outro. Não interessa quem começou com a divisão, nós não temos que continuar com ela. Se continuar assim, vamos virar uma Coreia (uma não, duas).

Já parou pra pensar que poderia ser você ali que curtiu a página do Bolsonaro? Que poderia ser você o petista “vagabundo, sustentado pelo governo”? Ou que poderia ser você o “coxinha”? Já parou pra pensar que você pode ter curtido a página em algum momento de euforia e já nem se lembra mais e está condenando quem curtiu também? Já parou pra pensar que poderia ser você apanhando por sair de casa com a cor “errada” de camiseta? Quantas páginas você já não curtiu e mudaram o nome depois e você ficou pensando “ué, eu não lembro de ter curtido isso aqui”.
Está ficando chato essa intolerância com tudo em todos os lugares, não importa o assunto.

Intolerância com o feminismo de uma, intolerância com a escolha da outra, intolerância com a posição sobre o impeachment de um, intolerância com a posição política do outro. Intolerância até com quem resolve escolher o Superman e não o Batman. Ou quem não escolhe nenhum.

Nós temos que aceitar melhor as divergências, isso vale pra mim também! É um lembrete! Não estou dizendo para ignorar, estou dizendo para pensar duas vezes antes de ofender e avaliar se vale a pena excluir alguém do seu círculo de amizade, alguém que você escolheu ser seu amigo em algum momento da sua vida, alguém que dividiu coisas com você, alguém que você vê todo dia, alguém com que você tem um relacionamento muito bom e possui muitas outras coisas em comum, por conta de uma curtida em página, por conta de cor de camiseta, por conta de qual lado do muro está, por conta de deduções.
Parece que passamos a deletar pessoas não só da tabela amigos, mas também da nossa vida pessoal. Descartar pessoas com base em “você curtiu a página de fulano então você é como ele e eu sou melhor que você. You can’t sit with us“; ou “você votou no PT então você é bandido. You can’t sit with us“, ou o que me deixa mais triste de ouvir: “Bolsa Família é coisa de preguiçoso vagabundo”. A senhora, empregada doméstica, mãe de 3 filhos que luta pra colocar comida na mesa chora, e eu também!

Essa história me faz lembrar o meu primeiro dia de aula na 1ª série. Eu estava comendo sozinha em um banco e a menina chegou e disse: -Você não pode sentar aí, este banco é meu. Levantei e segui traumatizada por um bom tempo com medo que acontecesse novamente e não sentei mais naquele banco. No final, a menina virou minha melhor amiga. A semelhança nessa história é o “You can’t sit with us“, coisa de criança que não ainda não aprendeu a conviver com o diferente.

Antes de ofender alguém publicamente por gostar disso ou daquilo vamos pensar duas vezes nas consequências, conversar com aquela pessoa. Com amor a gente consegue se entender, e por favor, não queira que essa pessoa mude de ideia na hora seja ela qual for. Ideias levam tempo para serem construídas e digeridas. E se não mudar, aceite. Se a pessoa é sua amiga, seu parente, ou alguém que você gosta vale a pena romper tudo por causa de política?

Como disse o jornalista Alon Feuerwerker

Claro, se a pessoa te ofende por conta do seu pensamento e não passa de uma pessoa que você viu uma vez na vida, acredito que você esteja mais que certo em manter distância do que te faz mal, é questão de saúde. Faça dessa pessoa o Sol da sua vida e se mantenha a 149.600.000 km de distância. Mas o que ando vendo é diferente, a campanha que está rolando é deletar todo mundo que curte a página do cara, fazer a “higienização” da lista de amigos e depois compartilhar um post convidando os amigos que restaram a fazer o mesmo, “pela democracia e fim da opressão”. Não faz sentido.
Ninguém nunca disse que seria fácil conviver com pessoas que possuem convicções diferentes da sua, mas é necessário. É isso que a gente deveria aprender na escola, é por isso que fazemos trabalho em grupo.

Eu fui ver a minha lista de amigos e boa parte das pessoas são pessoas que adoro conversar, que adoro ouvir falar, que adoro a companhia e nunca me passou pela cabeça desfazer esse vínculo. Quando temos amigos com pensamentos tão diferentes dos nossos no Facebook, quando não existe ofensa, quando existe empatia e compreensão você consegue acompanhar os dois lados, aprende a não julgar, analisar sozinho e não criar certezas definitivas. E no caso de parentes, será que vale a pena levar uma torta de climão pra mesa nas reuniões de final de ano? Hoje a gente acredita em uma coisa, amanhã em outra e você perdeu uma amizade.

Existem diferenças entre escolher melhor as suas companhias e o que você absorve delas, e defenestrar alguém que você gostava até ontem só porque faz parte do #teamVermelho ou do #teamCBF.

Recomendo o texto “O Tinder está acabando com suas habilidades interpessoais“. Esqueça que está escrito Tinder e leve o tema para qualquer rede social, é mais ou menos isso que está acontecendo hoje, não estamos sabendo lidar com pessoas.

Comentários

Be kind / Be nice

  • Eu também ja fui um pouco intolerante e me arrependo..
    Acompanho todo o conteúdo do seu blog já faz um bom tempo, adoro ler todos os artigos que você insere nele. Parabéns pela dedicação que você tem e por compartilhar para todo o mundo. Estarei sempre de olho aqui em <3

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