O que o machismo tem a ver com o estupro do Rio de Janeiro?

Data: 30.05.2016  Categoria: Pessoal  Leitura: 12 minutes 

Tudo!

Se você não mora em Marte e tem acesso a internet você provavelmente sabe o que ocorreu na última semana e deve ter lido todas as matérias possíveis, todos os protestos e manifestos, todas as atrocidades em comentários nos portais de notícias e textões no Facebook sobre a menina de 16 anos vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro.

Não sei se o que me chateou mais foi o estupro por si só ou os rapazes colocarem o vídeo na internet da menina desmaiada e sangrando, orgulhosos e certos de que nada aconteceria e as atrocidades que li de gente tentando justificar de várias formas diferentes o estupro. A verdade é que tudo doeu, tudo me deixou chocada, tudo me fez chorar. Não preciso dizer que é um absurdo colocar a culpa na vítima e tirar do estuprador.
Assim como é um absurdo dizer que as feministas então pegando um caso isolado pra fazer escândalo e que esse tipo de coisa não acontece. Acontece sim! Tanto que no mesmo dia em que foi registrado o estupro coletivo no RJ outro ocorreu no Piauí. Isso sempre acontece, a gente só não vê porque não quer.
Vamos parar de julgar a realidade da vida com base no que vemos só no nosso dia-a-dia.

Nenhuma mulher anda na rua procurando por um homem que estupre ela, ninguém vai para um baile funk perguntando em qual camarote o estuprador está pra ir bater um papo com ele, nenhuma mulher marca horário com o estuprador na volta do trabalho. Seja a caminho para a igreja, trabalho, casa, ou bêbada voltando da rave ou baile funk. Assim como você também não procura que levem seu celular, seu carro, sua vida ou seu dinheiro quando vai sacar no caixa eletrônico tanto durante o dia quanto durante a noite.

“Apesar de entendermos o estupro como um dos piores crimes que podem acontecer a alguém – segundo pesquisas sobre percepção de crueldade, ele só perde para o assassinato -, somos estranhamente incrédulos para acreditar que ele realmente acontece. O estupro é o único crime no qual a vítima é julgada junto com o criminoso. Imagine que roubaram o seu celular e você decide fazer um B.O. Agora imagine que o delegado que pegou o seu caso resolve perguntar onde você foi assaltado, que horas eram e se você era conhecido por trocar de aparelho o tempo todo. Depois ele pergunta se você tem certeza de que o assalto realmente aconteceu ou se você não deu o celular ao bandido por vontade própria. Se você então explica que o roubo foi de madrugada e depois de você ter tomado umas cervejas, o delegado decide – por conta própria – que não houve crime algum: você estava na rua e bêbado, quem pode garantir que você está falando a verdade? Ou então, pior, quem disse que você não queria ter sido assaltado?” – SuperInteressante – Como Silenciamos O Estupro

Não adianta falar que nesse caso é diferente pois não é, ninguém pede para que cometam um crime. Quem já não teve uma arma apontada pro rosto e teve que entregar o celular que estava no bolso ou na mão e achou um absurdo o que aconteceu, e pediu justiça?
Agora, quem já não teve um amigo ou conhecido que passou pela mesma situação e longe dele disse ou pensou “Também, estava com um iPhone na mão durante a noite, no meio da rua. Estava pedindo pra acontecer!”.
Pois é! Quando é com a gente o discurso muda.

Quando alguém postar alguma coisa falando sobre o acontecido e o que esses homens fizeram – pois são homens sim – não venha dizer “mas nem todo homem é assim”, é óbvio que nem todo homem é assim e ninguém está dizendo o contrário. Quando uma mulher diz que “todo homem é um estuprador em potencial” – acho um pouco agressiva essa afirmação – ela quer dizer que o taxista pode ser um, o chefe dela pode ser um, o amigo do pai pode ser um, o policial pode ser um, o soldado da ONU pode ser um. Sabemos que não são todos os homens que estupram, mas quando estamos na rua temos medos de todos. Não podemos também chamar de doença, afinal, que doença é essa que atingiu 5, 10, 30 homens ao mesmo tempo? É a água?

Uma menina foi estuprada e um dia depois já existiam perfis fakes e todas as histórias possíveis sobre a vida da garota e antecedentes criminais, inclusive sobre as preferencias sexuais. Sobre os suspeitos? Nada! Na internet o povo condenou a vítima, as feministas, o funk, a favela, os defensores dos direitos humanos, as drogas, as bebidas, disseram que ela estava mentindo pois ela conseguia andar, defenderam o Bolsonaro… mas sobre os estupradores não se falava nada.

*enquanto escrevia o post soube que um se entregou e outros 5 estão foragidos. As investigações continuam pra saber do resto e não cabe a nós julgar se a menina está mentindo ou não, se ele conseguiu contar quantos eram ou não, se ela consegue andar ou não. Tem notícias aqui e aqui.*

As matérias dos jornais falam sempre em “supostas agressões”, alguma “suposta vítima” que “alega ter sigo estuprada”. Descredibilizar a vítima é muito sério e isso só ajuda a espalhar esse pensamento machista. É machista sim! Quando um delegado pergunta da vida sexual da vítima para justificar o estupro, quando existem vários comentários dizendo que ela mereceu, quando uma pesquisa mostra que um número considerável da população diz achar que dependendo da situação a mulher merece ser estuprada, quando matéria de jornal faz questão de destacar que a vítima frequenta bailes funk com a clara intenção de responsabilizar a vítima, quando um garoto diz que não foi estupro o que ele fez e que a menina pediu tudo é esquecido pois basta a palavra de um homem. É machismo sim!

Se mulher acha que existe alguma justificativa pra estupro só posso desejar boa sorte pra ela e para as mulheres da família dela. Não pense que ao chamar outra mulher de piranha você vai estar protegida e ganhando pontos com machos.
A saia curta, a bebida, andar sozinha à noite, ter vida sexual ativa, o tipo de música que gosta de ouvir, nada disso pode legitimar um estupro.
Até quando vamos continuar punindo a vítima dizendo que esta deveria ter “se comportado”, “se preservado” e “se dado ao respeito”?

O fato é que homens nunca vão entender o que é isso até passar pela mesma coisa. Não consegue imaginar isso acontecendo com você? Com a sua mãe? Com a sua mulher? Com a sua filha? Tudo bem, mas então não fale nada! Não faça piada nem pouco caso com a desgraça alheia.
Quando falar “isso nunca aconteceria com a minha filha, ela nunca andaria com esse tipo de gente, ela nunca sairia de casa com uma roupa dessas”, apenas cuidado, a gente sabe que a Vida adora uma ironia, não é mesmo?

Não importa se ela gostava de sexo em grupo, não importa se ela quis transar com 300 naquele dia. Se ela foi dopada, desmaiou ou dormiu no meio é estupro! Se ela quis transar com 30 mas no 5º desmaiou e os outros 25 continuaram, é estupro!
Não importa se andava com traficante, se usava droga, se foi mãe aos 14 anos e se tinha fotos com armas. Não importa se não era santa. Qual mulher é? Até quando a mulher estuprada vai ser suspeita até que se prove o contrário? O que adianta aumentar a pena se nem mesmo com vídeo mostrando a cara do cidadão ele vai preso, o que adianta castração química se o cara não vai pra cadeia?

Vocês ainda acham que feminismo é besteira?

Feminismo não é o que você vê nos jornais com notícias querendo ridicularizar o movimento. Feministas também não são mulheres insatisfeitas, loucas, histéricas, mal comidas, nem gordas, feias, lésbicas ou masculinas. Elas são o que são e pronto. Feminista não tem cara.
Feminismo não é falta de respeito, feminismo não é grosseria, feminismo não é machismo reverso, feminismo não é misoginia. Feminismo é um movimento político e social que defende a inclusão legal e cultural sem distinção de gênero. É uma reflexão sobre os problemas relacionados com a discriminação e o preconceito, uma visão sobre a necessidade de qualquer homem e qualquer mulher terem os mesmos direitos e deveres como indivíduo.

Já o machismo, é uma atitude de arrogância dos homens em relação às mulheres, e também é uma conduta de menosprezo de gênero. O machismo não se reduz apenas ao sexo feminino ou a atitude dos homens sobre as mulheres como conduta social, abrange questões sensíveis como a discriminação contra a diversidade sexual, bem como pressão social e cultural exercida sobre o comportamento masculino. Em outra palavras, um homem também pode ser – e é – vítima do machismo assim como a mulher e padece das mesmas consequências sociais.

Homens que não aceitam que suas mulheres ganhem mais, e não deixa os amigos saberem, pra não ser zoado, afinal isso não é coisa de macho. Tratar mulher com respeito não é coisa de macho, chorar não é coisa de macho, levar o filho pra escola não é coisa de macho, cuidar da pele não é coisa de macho, cuidar das unhas não é coisa de macho, e por aí vai. Os homens também tem muito a perder com o machismo.

O que é um absurdo: o feminismo existir, ou homens que querem exterminar as mulheres do planeta existirem? Se você acha que é a primeira opção é melhor rever os seus conceitos, e se acha que a segunda opção não existe você está enganado. Existem chans pela internet espalhando exatamente esse tipo de pensamento por aí. O apelido mais carinhoso que eles dão para mulheres é o de “merdalheres”. Tem coisa pior nessas páginas.
Lola Aronovich foi uma das vítimas desses chans, fizeram ameaças contra ela e contra e o marido. E antes que você, homem, queira se defender dizendo que homem também sofre com esse tipo de coisa eu já me adianto e digo que concordo com você, homem também sofre esse tipo de ataque pela internet. O colunista/blogueiro Alessandro Martins também foi vítima desse mesmo grupo, mas ameaçaram a integridade física da mãe e da irmã, uma senhora de idade avançada e outra com deficiência mental.
Então sim, vocês homens também sofrem mas o alvo não é o corpo de vocês, esse não é um medo que vocês sentem diariamente como todas as mulheres. Antes de sair para uma festa, por exemplo, sempre temos que pensar em como vamos chegar lá e o caminho que vamos fazer, pra poder escolher a roupa adequada pra não chamar tanta atenção e ainda um calçado adequado para uma possível corrida pra fugir do perigo. E se mesmo assim decidirmos ir de vestido e salto, além de ouvir um monte de coisa desagradável na rua e passar medo o caminho inteiro, se na festa a gente beber um pouco a mais e o cara que você julgava ser seu amigo tentar te estuprar, na visão da sociedade, do delegado e da imprensa a culpada/vadia vai ser você.

O mundo deve ter acabado em 2012 enquanto a gente dormia, estamos vivendo nos escombros.

Já está na hora das pessoas saberem que esse tipo de gente existe. Leia o post da Lola Aronovich onde ela conta com detalhes o que aconteceu com ela ano passado. Inclusive Roger do Ultraje a Rigor compartilhou um link do blog falso que criaram pra ridicularizar ela e o movimento feminista; quando ele descobriu que o blog criado era falso ele disse “Problema dela, também existem relatos fakes sobre mim.” e mesmo assim compartilhou. Na cabeça de QI 172 que ele tem, vale tudo pra atacar uma feminista. Triste ver um cara que poderia mudar muita coisa incentivando esse tipo de comportamento e dando ibope pra gente ruim.
Enquanto pessoas públicas continuarem espalhando esse tipo de coisa, vai ser difícil acabar com esse tipo de pensamento. Aí a gente vai continuar rindo de piadas sobre estupro, tirando mulheres do poder e de ministérios, zombando da troca de um delegado por uma delegada e chamando Frotas pra conversar sobre educação.

O problema é enorme, o buraco é mais embaixo, estuprador não tem cara, não tem classe social, poder aquisitivo ou religião. O problema está em todo lugar! Vale a pena ler essa matéria da SuperInteressante também.

E pra terminar, uma listinha que está rolando pela internet:

“Se ela estivesse estudando isso não aconteceria”
Menina estuprada em escola de São Paulo reconhece agressores.

“Se ela estivesse na igreja isso não aconteceria”
Jovem é estuprada dentro da secretaria de igreja em Brasília.

“Se ela estivesse em casa isso não aconteceria”
Morre jovem encontrada com sinais de estupro dentro de casa na Zona Norte.

“Se ela estivesse trabalhando isso não aconteceria”
Jovem é atacada e estuprada a caminho do trabalho.

“Se ela tivesse um namorado fixo isso não aconteceria”
Meu namorado me estuprou por um ano enquanto eu dormia.

“Se ela fosse mais família isso não aconteceria”
Adolescente com deficiência física é estuprada por tio em RR.

“Se ela fosse menos ‘puta’ isso não aconteceria”
Menina (de 1 ano e meio) morta em igreja foi violentada.

“Se ela tivesse mais cuidado isso não aconteceria”
Jovem é estuprada em estação do Metrô de São Paulo.

Comentários

Be kind / Be nice

  • Acho que esse é um problema complicado de resolver, poderia falar nas futuras gerações, mas esses cara serão pais e como criaram os filhos? É complicado talvez leis mais duras ajudariam mas não sei se resolveria por completo

  • É muito triste saber que tem homens que se comportam como animais. Não existe justificativa para o estupro. Gostei muito do texto, ampliou minha visão sobre o assunto. Parabéns!!!

  • Isso é uma série de coisas não apenas machismo é a ponta do ice berg muito maior que vem da falta de educação de gerações que hoje está cu minando nisso imagine os filhos desses caras! Como vão ser?

  • Tenho que confessar que muitas vezes já ouvi comentários como “Nossa que gostosa, essa merecia ser estuprada”. Eu não sei o que passa na cabeça de um cara desse… seu corpo bonito a faz merecedora de um crime? Uns dizem que os valores estão se invertendo, já eu, acho que cada vez mais os valores estão sendo desvalorizados!

  • Matéria muito boa essa! Infelismente vivemos numa sociedade muito insensível sem amor que não está nen aí pros outros,o caso foi chocante e merece justiça.

  • Que nojo desse mundo. Esse caso faz a gente pensar bastante e, polêmicas à parte, está mais do que na hora do povo passar a pensar realmente antes de agir. Cheguei no seu blog através da Central do Textão e quero acompanhá-lo pois gostei bastante. Um beijo.

    • A Central do Textão é só amor! Adorei tudo o que encontrei por lá também!
      Fato, a gente precisa pensar antes de agir, e falar. Não é legal sair por aí machucando todo mundo, mesmo com palavras. Cada pessoa vai receber de um jeito e o fim pode não ser legal.

      Beijos! Te espero de volta.

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