31 de agosto de 2016, o dia em que descobri que nada vai mudar.

Data: 13.09.2016  Categoria: Pessoal  Leitura: 15 minutes 

A intenção do post era outra. O assunto era as brigas constantes na internet com todo mundo querendo saber mais que os especialistas, com uns querendo provar algo para outros, provocações e xingamentos. Era um desabafo, mas no final saiu outro.

Estamos vivendo tempos bem difíceis. Não é a primeira vez que algo assim acontece na história mas é a primeira que acontece com a internet sendo o que é hoje e na internet o alcance de tudo o que nós fazemos e falamos é maior. A opinião não fica só com nossos amigos ou só com nossa família, a opinião não fica só com os que pensam igual e é aí que precisa entrar o respeito. Na internet parece que o filtro que temos na vida real, que usamos no momento de falar com os outros, não funciona. Na internet todo mundo vira “macho” e ninguém para pra pensar o que essas publicações podem causar.
Nessa lista de publicações entram coisas bem ofensivas e agressivas contra quem pensa de forma diferente — sobre diversos assuntos, mas agora estou falando de posição política. Ver alguém chamando a Dilma de vaca e puta me ofende pois sou mulher, e também porque li coisas desse nível vindo de pessoas que gostava e pela certeza que tenho que nenhum homem no lugar dela seria tratado com a mesma falta de respeito. Não sou o tipo de pessoa que tenta problematizar tudo, mas esses comentários a respeito da Dilma têm me incomodado bastante.
Me entristece ver que mesmo que eu não compartilhe da opinião política de alguém que eu goste eu não estou espalhando algo ofensivo a respeito da opinião dela pois tenho respeito e não estou vendo o contrário acontecer.

Pessoas diferentes percebem o mundo de maneiras diferentes e a gente tem que ao menos tentar respeitar essa visão e conversar com respeito. Não apontar dedos ou xingar, excluir, menosprezar e debochar. Não é hora de deboche.
Nós temos a mania das olimpíadas de sofrimento, quando competimos pra saber quem tem mais ou menos problemas e agora estamos vivendo as olimpíadas da superioridade moral e do apontamento de dedos. Nenhuma entrega medalhas.

Nessa polarização existe esquerda e direita, golpista e militonto, coxinha e mortadela. Cada lado se sente mais correto que o outro. O problema não é você escolher um lado, o problema é você querer eliminar tudo o que não faz parte dele. O problema é você desprezar as ideia do lado oposto e é exatamente isso que as pessoas estão fazendo.
A solução para os nossos problemas não está nem só de um lado e nem só do outro, e se você faz essa escolha pensando dessa forma já começou errado e vai se decepcionar. Enquanto esses lados ficarem se esgrimindo nas ruas e na internet com provocações e espalhando mentiras e teorias nada vai se resolver.

Evito entrar em conflito com pessoas que gosto, mas fica muito difícil quando essas pessoas não querem evitar conflito com ninguém. Evitar conflito é perceber qual briga vai valer a pena e qual não vai. E se eu vejo a pessoa todo dia e percebo que uma discussão vai deixar o clima pesado no local de trabalho nem entro no assunto ou então saio rapidinho dele. Da mesma forma que eu tenho as minhas certezas o outro também tem e nós não podemos nos esquecer disso. Não estamos aqui pra mudar a cabeça de ninguém, só você pode fazer a própria mudança.

Fica difícil não se chatear quando provocam os outros e defendem coisas que vão totalmente contra os meu ideias. Fica difícil não se irritar com os amigos de direita resumindo a situação entre “se estão do meu lado são corretos” vs. “petistas vagabundos”. A garganta irrita e a mão do textão de facebook coça e a gente respira fundo pra não postar indireta e acabar fazendo igual.

São de direita pois são ricos e de esquerda pois são pobres ou são ricos porque são de direita e pobres porque são de esquerda?
Me entristece ver amigos dizendo que petistas (termo utilizado por eles para todos os que estão do lado oposto) querem que o Temer fracasse para o bem do partido enquanto eles querem que Temer tenha sucesso para o bem do Brasil.
Me deixa assustada esses amigos desejarem que Dilma e Lula façam o mesmo que Getúlio.
Me decepciona ver o amigo cheio da grana que mora em condomínio fechado oferecer um brinde ao empresário da FIESP, a imprensa da direita e a elite brasileira, chamar Dilma de “Dilmanta”, câncer, vaca e puta e ainda dizer para que quem estivesse insatisfeito com a decisão do impeachment fazer o mesmo que ele fez quando a Dilma ganhou as eleições; pegar o passaporte, escolher um país e tentar a vida lá. Só que pra esses ele não deseja Miami, ele deseja Bolívia, Venezuela e Cuba.
Fique tranquilo amigo, ninguém aqui tem dinheiro pra invadir a sua exclusiva Miami.

Como alguém pode apoiar um grupo de cidadãos que defendem a intervenção militar (só para os outros)?
Em um país onde uma estudante perde a visão do olho esquerdo por manifestar a própria indignação e ouvir gente dizendo que a garota mereceu; em um país onde ser pobre, negro, homem e morador de periferia é o suficiente para a polícia atirar primeiro e perguntar depois e as pessoas aplaudirem; em um país onde policiais cometem chacinas e veste máscara de palhaço e as pessoas acham lindo; em um país onde um menino leva um tiro no peito e ainda tem forças para perguntar: —Porque o senhor atirou em mim? — e ninguém se comove.
Parece que a censura e a violência nunca foram embora, você não precisa pedir pra ela voltar.
Você não precisa dizer que nem todos os policiais são assim, mas é preciso repetir a todo momento que nem todo mundo que mora na favela é bandido. A polícia é reflexo do Estado, quem reclama da polícia não está reclamando do policial que faz o seu trabalho com respeito, está reclamando do Estado, está reclamando da militarização da polícia, está reclamando do bandido de farda.

“O policial representa o Estado, quando um policial agride um cidadão, é o Estado quem está agredindo.” – Luiz Gonzaga Dantas

“A formação dele é para agir conforme a razão. Ele foi treinado para agir com a razão frente ao cidadão, mesmo diante de um cidadão que diga algo que ele não goste” – Luiz Gonzaga Dantas

Como diz Emicida, quando a gente olha para uma coisa dessa e não fala nada a gente tem que se perguntar se nós é que estamos vivos.

A polícia
Matou o estudante
Falou que era bandido
Chamou de traficante!
A justiça
Prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado
E absolveu os PMs de Vigário!
– Até quando (Gabriel O Pensador)

Como apoiar um grupo de cidadãos que defendem o discurso “Então leva pra casa!”?
Bem que eu gostaria mesmo de ter como levar uma criança dessas que vocês chamam de vagabundo pra casa e dar tudo o que ela precisa e merece.

Como apoiar um grupo de cidadãos que acreditam na meritocracia e diz que “a vida é feita de escolhas”?
A vida realmente é feita de escolhas, pra quem tem opções. Quem não mora em uma casa decente, não tem saneamento, não tem vaga na escola, não tem vaga na creche, não tem hospital, não tem comida, não tem transporte. Onde não entra carteiro, não entra polícia (se entra é pra matar) e não entra ninguém que se importe e faça acontecer fica difícil ter opções.
Qualquer um que tenha dado certo na vida que você citar é a exceção e não a regra. A oportunidade atravessa a rua para essas pessoas, assim como nós. Infelizmente.
Eu acreditaria na meritocracia se absolutamente todos tivessem as mesmas condições.

Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá
– Até quando (Gabriel O Pensador)

Como apoiar um grupo que defende o uso de armas sendo que reagem de forma agressiva aos que pensam diferente? Que jogam o carro em cima de um ciclista e o chama de comunista por andar de bicicleta. Nós não temos condições de ter armas na mão, somo passionais demais.

São pessoas com esses pensamentos que vejo apoiando Temer, são pessoas com esses pensamentos que vejo apoiando a família Bolsonaro. Alguns com todos esses pensamentos, outros com um; alguns apoiam um ou o outro e outros os dois. O fato é que não compartilho com a posição de nenhum deles e nem dessas pessoas. E uma coisa leva a outra.

O PT, ao chegar no Planalto, acreditou que poderia jogar o mesmo jogo. Tornou-se tão fisiológico quanto os velhos coronéis, tão corrupto quanto os antigos barnabés, tão capaz de distribuir cargos, verbas e propinas quanto quaisquer outros políticos que já estiveram no mando brasileiro.” – Pedro Doria

É verdade, Dilma errou repetindo o erro de tantos outros, mas errou. Mas como posso apoiar um grupo de políticos que fizeram um impeachment acontecer, não pela sobrevivência do Brasil, mas pela própria sobrevivência e a sobrevivência de luxos. Para parar a Lava-Jato. A motivação de tudo está na cara de todos, e a conspiração deu certo. Muita gente acreditou que tirar a Dilma era tirar a corrupção e inserir empregos. Prefiro acreditar que quem apoia Temer, apoia pela inocência e não por apenas odiar o PT.
Mas tudo vai voltar a normalidade, como sempre, pois nossa indignação é seletiva. Quem foi protestar na Av. Paulista com camisa da CBF dizendo que tiraria primeiro a Dilma e depois o resto não deixou claro que o resto a que se referia era qualquer um que dissesse #ForaTemer na rua.

“Foram vocês que votaram nele, na próxima eleição escolha melhor o vice.”
Quem votou na Dilma não votou no Temer, quem votou na Dilma, votou apesar dele. É egoísta e maldoso resumir a situação toda em “votou no vice porque quis”. Temer foi eleito junto, é verdade, mas como vice. E como vice, foi eleito para cumprir os projetos políticos que votamos caso algo acontecesse com a Dilma. (Na verdade não há obrigação legal que vincule o governo aos projetos que prometeu para se eleger, infelizmente.) Temer não foi eleito para cortar verbas na educação e na saúde. Temer não foi eleito para mexer nos direitos trabalhistas e na previdência da forma que está fazendo. Uma reforma talvez seja necessária — não entendo do assunto mas não duvido — mas não da forma que está sendo feita e está desesperando todo mundo. Temer não foi eleito para articular um golpe contra aquela que estava, até então, ao lado dele.
Temer sabia que Dilma maquiou os números para garantir a reeleição, afinal, era do interesse dele também. Temer mentiu junto, pedalou também. Ou ele vai dizer que não sabia? Nesses casos um vice também deveria cair.
Ao menos espero que esses que reproduzem a frase “escolha melhor o vice” tenham aprendido e também escolham melhor não só o vice, mas o presidente. Não da pra falar que faltavam opções no primeiro turno.

Como apoiar esse governo com as propostas que tem?

O governo é como a sua família. Se estiver endividada, precisa diminuir despesas para pagar as dívidas. Por isso, uma de nossas primeiras providências foi impor limite para os gastos públicos.” (Temer)

O problema não são os limites ou cortes propriamente ditos, o problema é como será feito. E a gente sabe como a coisa funciona. Nós já estamos cansados de ver hospitais e escolas sem verba, que outros limites serão esses?
Quando diz que o 13º deixará de ser obrigatório e que isso ajudaria a contratar mais pessoas e gerar mais empregos e que esse dinheiro seria reajustado ao salário, em um mundo ideal, eu acreditaria. Mas a gente sabe que não é assim. A gente sabe que o empresário vai aproveitar a “sobra” pra colocar no próprio bolso. A gente sabe que se o empresário conseguir alguém que faça o trabalho de dois pelo valor de um ele vai contratar. No Brasil funcionário não tem possibilidade de negociar com patrão.

O Temer mexe na CLT: ele sabe o que faz, vocês que não entendem nada das notícias, leia direito, é pro nosso bem. A Dilma mexe: NOOOOOOSSSA!!!

Vamos impor limites nesses salários que os senhores recebem, cortar gastos com jatinhos, jantares e hospedagens. Por que não param de desviar dinheiro? Por que não acabam com a corrupção?

“O PT não pretendia mais sair do poder.”
É democracia, quem tem o poder de escolher quem vai e quem fica é o garra povo.

(Foto: Ueslei Marcelino / Reuters)
  • Jucá:
    Eu acho que…
  • Machado:
    Tem que ter um impeachment.
  • Jucá:
    Tem que ter impeachment. Não tem saída.
  • Machado:
    E quem segurar, segura.
  • Jucá:
    Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. (...) Tem que ser política, advogado não encontra (inaudível). Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.
  • Machado:
    Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel (Temer).
  • Jucá:
    Só o Renan(Calheiros) que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Cunha’. Gente, esquece o Cunha, o Cunha está morto, porra.
  • Machado:
    É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
  • Jucá:
    Com o Supremo, com tudo.
  • Machado:
    Com tudo, aí parava tudo.
  • Jucá:
    É. Delimitava onde está, pronto.

Os antipetistas podem achar que tiveram uma grande vitória, que fizeram tudo sozinhos e que cortaram o mal pela raiz, mas a raiz ainda está inteira e forte. Não penso que a Dilma fosse a salvadora da pátria e que iria eliminar todos os problemas e acabar com a desigualdade, ela não ia e não vai. Mas Temer também não, o que ele fez e como fez comprova tudo.
Acontece que, talvez, esses salvadores tenham ficado para trás ainda no primeiro turno. A gente não sabe pois nunca demos chance a nenhum deles. O voto fica sempre com os mesmos e as reclamações permanecem sempre as mesmas. Precisamos parar com isso, enquanto a gente não mudar a nossa forma de pensar a política, enquanto a gente não mudar os nossos votos, enquanto a gente continuar com preguiça de pesquisar candidatos e propostas, nada vai mudar.
É fato que pra situação melhorar pode ser necessário alguns cortes, mas antes desses cortes é necessário reforma política, mudar as regras do jogo, parar com os desvios, paras com as conspirações e aspirações por poder. Precisamos mudar quem está lá pra depois mudar o que está aqui.
A culpa não é da Dilma, a culpa não é do Temer, a culpa não é de um partido ou outro, a culpa é de todo mundo que está lá.
Quem apoia Temer não vê que está cuspindo pro alto. Só nos resta cruzar os dedos e torcer, ficaria feliz em estar errada e ver que tudo não passa de implicância com o vice decorativo.

Recomendo:

Levar criança para #ForaDilma é patriotismo, levar criança para #ForaTemer é atrocidade.
Uma notícia mal contada é um assalto a mão armada
Um possível chapa, Emicida lança clipe com mulheres que tiveram filhos mortos por PMs
Não vai passar na TV: a violência contra os manifestantes nesta quarta
Página do Democratize no Medium
Força transparente

Comentários

Be kind / Be nice

Seja o primeiro a comentar!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

CommentLuv badge

%d blogueiros gostam disto: