Impermanência

Data: 03.11.2016  Categoria: Pessoal  Leitura: 5 minutes 

Assino algumas newsletters por aí e esses dias recebi uma da Nath que quis guardar para sempre no meu coração e na minha caixa de e-mail para ler de vez em quando. Só que mais do que guardar, eu quis passar pra frente pois a ideia por trás do e-mail é linda, ainda que dolorosa.
O e-mail falava sobre desapego, não ter o controle de tudo, o ciclo da vida e o que a mandala tibetana tem a ver com tudo isso. Às vezes até me assusto com a forma que as coisas se conectam em alguns momentos. Em outros eu prefiro pensar que não existe essa de coincidência; nós é que prestamos mais ou menos atenção em algo de acordo com o nossa sensibilidade no momento.
Eu conhecia a mandala mas não sabia que era tibetana e também não conhecia seu significado.

Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses. – Rubem Alves

Tudo está em constante mudança no universo e nada é eterno, nós aprendemos o ciclo vital assim que entramos na escola. É óbvio que nada dura para sempre, nem a felicidade e nem a tristeza. Tudo está em movimento o tempo todo.

Nós temos tanto medo do futuro que nos apegamos ao passado para postergar alguma mudança que uma hora ou outra deverá ser feita, nós temos tanto medo de mudança que nos apegamos em algo que já nem existe mais.
O meu problema é que eu me apego ao futuro, me apego tanto que entro em desespero. Me apego em algo que nem existe ainda. Tenho medo que ele não seja como planejei, ainda que eu saiba que ele não será como desejo eu quero ao menos acreditar que sim, pensar que temos o controle de tudo ou alguma coisa. Afinal, ao aceitar que não temos o controle das coisas corremos o risco de ficar deitados na cama apenas esperando que a natureza faça o trabalho dela. E não é assim que deve ser. Até onde nós controlamos a vida? Até onde nós podemos nos apegar? Mesmo sabendo que é inevitável.

Entender tudo isso é fácil, mas aceitar não. E nem sei se quero aceitar tão fácil, sou o bicho mais teimoso da Terra. Me faz parecer que aceitar é ceder. Mas nas horas difíceis, quando tudo sai dos trilhos que nós construímos entender que a vida é feita de ciclos e fases pode nos dar algum conforto. Mas, meu Deus, como mudanças são difíceis.

Aceito melhor as mudanças bruscas da vida do que das pessoas. Mas isso porque sabemos que não tem jeito mesmo, faz parte de algo maior, faz parte de algo que ninguém tem controle.
Eu penso demais no futuro e quando penso em todas as possibilidades de algo dar errado, sofro muito, entro em desespero. Só queria uma garantia de que ao menos uma coisa desse certo, de que essa coisa fosse minha, do jeitinho que planejei e aí todo o resto poderia dar errado sem crise nenhuma. O problema é que não posso controlar as pessoas, por mais que eu tente.

A mandala tibetana de areia representa tudo isso, ela representa os ciclos e fases da vida. Ela é um exercício de meditação praticado pelos monges, o ritual que antigamente era praticado em segredo hoje serve de instrumento para preservar e divulgar a cultura tibetana.

A construção e dissolução da mandala é a materialização do maior ensinamento budista: a impermanência. É uma forma de entender melhor a nossa existência e a essência da vida. E essa compreensão é que vai nos ajudar a entender as mudanças que surgem e a aceitar de coração aberto o que acontece. Ainda que doa.
É após a dissolução da mandala que entendemos que uma reconstrução é possível. É quando entendemos que as leis do universo são feitas de ciclos e que conseguimos nos desapegar do que criamos. O problema não é entender, é aceitar.

Tudo o que nós construímos na vida começa do zero e também é assim que a mandala começa. Sua construção é feita com muita dedicação e afinco. O que nós construímos ao longo das nossas vidas também. Quando a mandala é finalizada ela é desfeita por quem a criou e a areia é jogada em um rio para que as bênçãos se espalhem.
Cada mandala é associada a uma divindade, que não são deuses ou deusas, mas sim budas. São seres iluminados que demonstram compaixão, sabedoria e habilidade para liberar todos os seres do sofrimento e levá-los ao despertar.

“Este é o principal ensinamento da mandala de areia: tudo na vida é impermanente, tudo faz parte do ciclo de nascimento, morte e renascimento. Quando desmancho uma mandala e misturo todas as areias estou apenas reproduzindo a vida.”

O motivo da dissolução da mandala serve como 20 anos de análise.

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